O ESTADO DE S. PAULO

 

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

 

VIDA &

Um nova fase itinerante antes da idade adulta

‘Anos de odisséia’ são transição mais longa, marcada por improviso e fluidez emocional e profissional, que está redefinindo instituições sociais

David Brooks, do The New York Times

Considerava-se que a vida era composta de quatro fases: infância, adolescência, idade adulta e velhice. Agora, são pelos menos seis: infância, adolescência, anos de odisséia, idade adulta, aposentadoria ativa e velhice.

Das novas, a menos compreendida é a odisséia, um período itinerante que freqüentemente ocorre entre a adolescência e a idade adulta. Durante essa fase, as pessoas em torno dos 20 anos vão à escola, interrompem os estudos, voltam. Vivem com amigos ou na casa paterna. Ficam apaixonadas e se desapaixonam. Tentam uma carreira, depois outra.

A ansiedade dos pais aumenta. Eles sabem que existe uma transição entre a vida de estudante e a vida adulta. Mas quando olham para seus próprios filhos já crescidos, percebem que essa transição está se estendendo para cinco, sete anos, às vezes mais. Não conseguem detectar um sentido claro de direção na vida dos filhos. Percebem que eles deixam as coisas para depois - os filhos, ou a busca por emprego fixo.

As pessoas que nasceram antes de 1964 costumavam definir a idade adulta pela conclusão de algumas etapas de vida, como sair de casa, tornar-se financeiramente independente, casar-se e começar uma nova família. Em 1960, cerca de 70% dos adultos na faixa dos 30 anos já tinham passado por essas etapas. Em 2000, menos de 40% realizaram a mesma coisa.

REAÇÃO SENSATA


É possível até para os baby boomers (os nascidos na década de 50 nos EUA) perceber que esse período de improvisação é uma resposta sensata às condições modernas.

Dois dos melhores cientistas sociais dos EUA tentaram compreender essa nova fase da vida. William Galston, da Brookings Institution, concluiu recentemente um projeto de pesquisa para a Hewlett Foundation. Robert Wuthnos, da Universidade de Princeton, acabou de publicar o livro After the Baby Boomers, em que faz um exame do jovem adulto pelo prisma da prática religiosa.

Por meio do seu trabalho pode-se ver o espírito de fluidez que caracteriza esses anos complicados. Os jovens tiveram uma infância estruturada, observa Wuthnos, mas depois da formação universitária entram num mundo caracterizado pela incerteza, pela diversidade, busca e oscilação. As velhas receitas de sucesso já não se aplicam, não foram estabelecidas novas regras e tudo parece dar lugar a uma versão menos permanente de si mesmo.

O namoro foi substituído por horas em sites de relacionamentos e pelo “ficar”. O casamento deu lugar à coabitação. Não se freqüenta a igreja, o que existe é uma busca espiritual.

A leitura de jornais deu lugar ao“bloggin” - em 1970, 49% dos adultos na faixa dos 20 anos lia o jornal diariamente; hoje essa porcentagem caiu para 21%. O mercado de trabalho é instável.

Jovens universitários formados não encontram empresas que os guiem até a aposentadoria. Em lugar disso, encontram um vasto cardápio de opções de informações econômicas, das quais têm pouco conhecimento.

Os anos de odisséia não significam uma fase de indolência. Existem pressões competitivas intensas como resultado do enorme número de pessoas em busca de oportunidades que são relativamente poucas. Além disso, as pesquisas mostram que as pessoas atravessando esses anos têm aspirações altamente tradicionais (prezam a paternidade muito mais do que os seus pais) mesmo quando levam um tipo de vida improvisado.

Sem dúvida, o que se vê é a criação de uma nova fase de vida, da mesma maneira como a adolescência nasceu há um século. Uma fase em que instituições sociais como igrejas e partidos políticos têm sérios problemas para criar vínculos.

À medida que essa nova estrutura geracional se consolidar, serão criados novos ritos sociais e instituições. Um dia as pessoas olharão para trás e se surpreenderão com essas enormes mudanças forjadas por um grupo social emergente.