O ESTADO DE S. PAULO

 

sexta-feira, 18 de maio de 2007

 

CADERNO 2

Um convite para viajar de navio com Darwin

Espetáculo apresentado no Masp enfoca embate entre cientista e capitão do Beagle

Leia mais e acesse a cronologia de Darwin e texto do biólogo Nelio Bizzo e vídeo da exposição

Beth Néspoli

Vale ver a exposição sobre Charles Darwin no Masp. Vale também, e muito, ver a peça After Darwin, em cartaz, a partir de hoje, às sextas-feiras, no Auditório do Masp. Não, a peça nada tem de didática, como a exposição, e não foi criada em função do evento. Trata-se de mais um trabalho do grupo Arte e Ciência no Palco responsável por elogiados espetáculos, como Copenhagen e o solo Einstein, interpretado por Carlos Palma. A junção desses dois eventos foi coincidência feliz, bem aproveitada pelos envolvidos.

Quem percorre a exposição do Masp entra em contato com uma série de informações importantes sobre a trajetória desse naturalista inglês, autor do livro A Origem das Espécies. Quem vê a peça, dirigida por Rachel Araújo, entra em contato com Darwin em carne e osso, na pele do ator Carlos Palma, e compreende profundamente por que a teoria da evolução publicada nesse livro iria mudar a visão de mundo dos homens e provocar forte abalo em seculares valores morais e religiosos.

Quem percorre salas e corredores que abrigam a mostra entende a importância da viagem feita por Darwin no navio Beagle para a elaboração de sua teoria que, até hoje, baseia as pesquisas na área da botânica, da biologia e da genética, como mostram os vídeos e textos da exposição. Já o espectador da peça 'viaja' com o cientista, então com 22 anos, no navio Beagle e compartilha suas discussões com o capitão do navio, interpretado por Oswaldo Mendes, personagem que nem de longe é importante na exposição, mas é um dos protagonistas da peça. E compreende por que Darwin esperou 30 anos para publicar sua teoria sobre a seleção natural.

Exposição e peça não necessariamente se complementam - é plenamente possível apreciar apenas um desses eventos, sem sentir falta do outro -, mas ambos dialogam de forma muito interessante. 'A junção de ambas no mesmo espaço se deu graças à 'ponte' feita pelo biólogo Nelio Bizzo, professor da USP, autor do livro O Que É Darwinismo' (Ed. Brasiliense), que prestou assessoria tanto para o grupo quanto para a curadoria da exposição. Bizzo é ainda autor de um texto tão informativo quanto crítico e bem-humorado, publicado no programa da peça, escrita pela inglesa Timberlake Wertenbaker.

'A autora foi muito feliz ao explorar a relação entre Darwin e o capitão Fitzroy', diz Oswaldo Mendes. Afinal, a vida do cientista por si só não exerceria especial atração para o palco. Filho de família muito rica, jamais teve de lutar pela sobrevivência. Depois de casar-se com sua prima-irmã Emma, igualmente filha de ricos industriais, recolheu-se numa casa de campo onde se dedicou inteiramente à pesquisa científica. Não enfrentou nem mesmo a evidente rejeição que sua teoria iria provocar. Preferiu esperar o momento adequado para publicá-la e deixou que outros a defendessem, jamais se meteu em polêmicas.

Mas seus diários revelam que foi bastante conflituosa sua relação com o capitão Fitzroy durante os cinco anos de viagem pelo Beagle e nos raros, mas intensos, encontros de ambos depois disso. 'Ele, o capitão, queria fazer essa expedição para provar a veracidade do dilúvio bíblico', diz Mendes. Fósseis de peixes encontrados nas montanhas da América do Sul seriam uma das provas. 'Mas ele era também um pesquisador meticuloso que mediu toda a costa brasileira.' Era tão minucioso que mediu o litoral da Bahia até o Rio duas vezes, porque não confiou na primeira medição. 'Era também obcecado por meteorelogia, queria descobrir um jeito de prever tempestades porque isso salvaria milhares de vidas.'

Mas Fitzroy é um aristocrata conservador e fica horrorrizado com as idéias que Darwin compartilha com ele ao longo da viagem. 'Darwin prova que na natureza nada é fixo, tudo está em constante evolução. Sua teoria, mais que transformar a biologia, inaugura um novo paradigma na forma de o homem pensar a si próprio e o mundo', diz Palma. 'O eixo da peça gira em torno disso: nada é fixo; é o mundo de Fitzroy que passa a se mover sob os seus pés.'

Não por acaso esse personagem se suicida. Na peça, essa é a primeira cena, sua morte. A partir daí, a autora vai misturando o conflito entre Darwin e Fitzroy com o conflito entre os atores que os representam. Sim, a metalinguagem está presente. Mendes e Palma, além de serem respectivamente Fitzroy e Darwin, são dois atores ingleses que estão ensaiando uma peça sobre esse dois personagens sob direção de uma imigrante búlgara, vivida pela atriz Vera Kowalska.

'Aí, no plano da ficção, a peça discute como essas idéias científicas foram apropriadas pela sociedade, quais as conseqüências desse novo paradigma no comportamento do homem', observa Palma. 'Na peça dentro da peça, todos competem pela sobrevivência', observa Vera. 'Darwin provou que o homem é um animal, mas é também o único que tem consciência de pertencer a um coletivo. E o indivíduo é nada fora dele', diz Mendes.

Os protagonistas da peça

ROBERT FITZROY (1805-1865) -
Capitão do navio Beagle, ingressou no Colégio Naval aos doze anos. Foi vice-almirante, hidrógrafo, pioneiro da meteorologia - criou sistemas de previsão do tempo - e governador-geral da Nova Zelândia. Darwin escreveu sobre ele: 'Fitzroy tinha um caráter singular, com muitos aspectos nobres: era dedicado ao dever, generoso, destemido, resoluto, de um vigor imbatível e amigo ardoroso de todos os que estavam sob seu comando. Tinha uma emotividade exacerbada e acessos prolongados de mau humor contra aqueles que o ofendiam. Apesar de gentil comigo, era um homem de convívio difícil. Tivemos várias brigas. Logo no início da viagem, na Bahia, no Brasil, defendeu e enalteceu a escravidão que eu abominava. Encontrei-me poucas vezes com Fitzroy depois de voltarmos para casa, pois estava sempre com medo de ofendê-lo involuntariamente, e de fato o fiz, numa ocasião, quase sem possibilidade de nos reconciliarmos. Tempos depois, ele, que se tornara muito religioso, ficou indignadíssimo comigo por eu haver publicado um livro tão pouco ortodoxo quanto A Origem das Espécies. Ele teve um fim melancólico - o suicídio.'

CHARLES ROBERT DARWIN (1809-1882) - Naturalista, autor de A Origem das Espécies. Do casamento com a sua prima Emma Wedgwood ele teve dez filhos: dois morreram ainda bebês e Annie morreu aos 10 anos, episódio que o teria afastado de vez da religião. No seu diário, escreveu sobre si mesmo: 'Minha memória é tão precária que nunca consegui decorar por mais de alguns dias uma data isolada ou um verso de um poema. Tenho hábitos metódicos e dispus de amplas horas de folga, por não ter tido de lutar por meu próprio ganha-pão. Até a saúde precária poupou-me das distrações do convívio social e dos divertimentos. Meu sucesso como homem de ciência foi determinado por qualidades e estados mentais complexos e diversificados. Dentre eles, os mais importantes foram: o amor à ciência, a paciência ilimitada na longa reflexão sobre qualquer assunto, o empenho na observação e na compilação de fatos, e uma dose razoável de criatividade e bom senso. Com as moderadas habilidades mentais que possuo, é realmente surpreendente, portanto, que eu tenha influenciado, em medida considerável, as crenças dos cientistas sobre algumas questões importantes.'

(SERVIÇO)
After Darwin. 90 min. 14 anos. Masp - Grande Auditório. Av. Paulista, 1.578, tel. 3251-5644. Hoje, às 20 h. R$ 30. Até 14/7